quinta-feira, 24 de julho de 2014

Ele, a Menina, o Sol e a Lua








Ele, a Menina, o Sol e a Lua




Ele tirou da bolsa uma caneta e um bloco de papel, e começou a escrever sentado em frente ao quebra mar. As ondas batiam nas pedras com força e costume, e o vento salgado deixava seu corpo melado, grudento. O mar entrava pelo seu nariz, ampliando sua respiração e trazendo também o som das ondas numa música cheia de bossa.
O mar é infinito (pensou ele), mas o infinito é tudo que somente não podemos medir, e pra ele o mar era de fato infinito. Registrava todas essas sensações no seu bloco de notas, e se esforçava para rimar palavras e construir sentimentos a partir daquele momento dele com o mar. O sol partia sem esperar que suas rimas nascessem e germinassem. Já no ultimo momento, antes de partir, o astro rei ainda esperou o grande momento de a poesia nascer, mas foi em vão, o bloco de notas continuava a germinar observações e não poesia.
Por fim,  quando já não tinha ele esperanças, e recolhia a caneta e o bloco na sua bolsa, chega ao seu lado uma menina que brincava com sua bicicleta no calçadão e lhe diz:
_ Você não viu como o sol ficou todo enxerido esperando a lua chegar?
Ele olhou para o outro lado e viu uma lua linda e vigorosa, com um amarelado que vinha dos raios do sol, e assim percebeu a poesia daquele momento.
Toda criança nasce poeta. Ela tem o olhar da poesia, e sabe que tudo e todos interagem numa só substância chamada vida, por isso é que o poeta busca manter um olhar lúdico sobre o mundo, e naquele momento Ele percebeu que não conseguiu escrever o poema, porque ele estava de fato vivendo uma poesia, Ele, a Menina, o Sol e a Lua.
                                                                                                                 Daniel Porto

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Poesia Infantil


                      Aparei a lua, pra caber nas bordas, das estradas tortas, do teu coração.
                  O sol lá estava com seu fio dourado e diamantes colados dentre a imensidão.
                               E montei o tecido de risos e gemidos, de momentos e instantes.
                  Pairou na atmosfera a poeira do amor, a beleza e o torpor, todos lancinantes.
                                                                                          (Daniel Porto)

Vivendo


De repente a vida simplesmente
De repente a dor
De repente o amor
A felicidade
Ah a felicidade
Esse passarinho frágil que some ao menor presságio
Canta sempre um suave adágio
Deixando um gosto de saudade na partida
De repente, simplesmente, a vida!
Tudo que se tem para viver,
Todos os motivos que se busca para morrer,
Todos os mistérios trancados numa noite sem fim...
Viver é assim,
De repente se vive
E o tempo vai levando as horas como um riacho
Deixando no fundo do seu leito o que não conseguimos deixar ir
O mesmo choro que chora, é o mesmo que faz sorrir.
 (Daniel Porto)

segunda-feira, 7 de abril de 2014

RAZÃO





Não queiras a razão a todo custo
Deixe soltas as asas da loucura
Pois se tu fosses um quadro na moldura
O espelho não te daria tanto susto

Não quero ter razão e morrer infeliz
Quero pensar e sentir como um poeta
Voar com as asas da minha bicicleta
Beijar com a ponta do meu nariz

Quem vive de razão morre somente com ela
Não é capaz de perceber o que está por vir
Começa a morrer bem antes de existir
Vê a vida passar, debruçado na janela.

(Daniel Porto)

domingo, 23 de março de 2014

VIVER

Certo dia conversando com um amigo, ele me falou de um parente seu que estava completando 96 anos de idade. Eu comentei como era felizarda uma pessoa assim, com saúde e lúcida com tanto tempo de vida, e perguntei o que o aniversariante achava desta data. Para minha surpresa, meu amigo revelou que ele disse ser terrível, pois a cada dia que passava, sabia que estava perto o dia da partida, o dia em que deixaria de viver, pois muito tempo já tinha vivido, e agora velho e cansado, lhe restava apenas esperar a hora da morte, pois não esperava mais nada deste mundo.
Confesso que não tive opinião sobre o que disse o velho homem, e fiquei me indagando onde estaria à verdade disso tudo. Será que sua angústia é justa? Viver é um dissabor ao final? Ou será que aquele homem estava errado? Sempre temos a inclinação em seguir a “sabedoria” dos mais velhos, e demorei a discordar do que escutara, mas minhas convicções foram mais fortes do que a sabedoria dos 96 anos de vida daquele homem desesperado e infeliz. Sim, porque quem passa seus dias numa contagem regressiva, na verdade já morreu para os sonhos que a vida nos oferta. Deve ser um penar viver esperando a morte, sofrer a cada minuto gasto pela vida. Pobre homem!
Não sou melhor do que aquele homem velho. Tenho de vez em quando, a sensação do tempo se esvair por entre meus dias, sem que eu saboreie cada minuto de vida como deveria ser. Ou será que aquele homem estava certo mesmo? Afinal, é sempre um lamento saber que não se é eterno, que o doce da vida vai acabar um dia, e para ele, esse dia parece mais próximo devido a sua idade.
Rendo-me ao otimismo! Triste é viver para esperar a morte. Por mais que seja latente a sensação de tempo passando, devemos buscar a alegria de viver, a beleza de cada dia como se fosse o único. Aprender todo dia, ensinar sempre que possível, deixar sementes do que se crer é se perpetuar, e viver. Cada dia é um presente ofertado para nós, cabe-nos fazer o que achamos justo com ele. Podemos chorar porque ele passará depressa, ou aproveitá-lo como podemos e sabemos “sem tempo de manteiga nos dentes” como dizia Pessoa.
Hoje, mas do que o tempo passando, tenho a certeza da beleza de cada dia a mim ofertado, e sei que devo ser feliz pelo ontem, pelo hoje e pelo possível amanhã. Não devo esperar pela morte, pois ela fatalmente virá. Celebrarei a vida enquanto ela estiver em mim, sem angustia, sem tristeza, apenas buscando a sabedoria escondida em cada dia vivido, sabedoria essa, que infelizmente não chegou para aquele pobre homem que há 96 anos, vive esperando pela sua morte.


Daniel Porto

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Poema da Bênção


Poema da Bênção

Nas noites mornas, quando as sombras pairavam nos corações;
Antes, bem antes de findar as estrelas, e a esperança surgir numa nova manhã.
 Bênçãos eu te dava, em verdade e intenção.
Amém, e ali findava nosso momento comum.
Uma espécie de acalanto, um desejo de bem querer,
Era algo mágico, sem razões, sem nenhum por quê.
Mas a vida transforma tudo.
O mundo enfim é um turbilhão.
Machuca nosso coração,
E às vezes nos impede de seguir.
A distância, levemente toma conta,
Tudo vai perdendo a cor, o encanto,
Como um barco a deriva, diminuindo sempre, diante do cais.
Hoje,
Das minhas bênçãos, não precisas mais,
Pois tenho tantos defeitos, desleixos, pecados,
Sou um anjo torto, para o erro fadado,
Não posso mais te fazer sorrir.
Mesmo assim, vou dizendo em meu coração,
Secretamente no silêncio da escuridão,
A bênção de sempre, que sempre desejarei pra ti.
Deus te abençoe!

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Sol Poente


Tantos versos se misturam em minha mente,
E eu vendo ao longe o sol cansado se por...
Como uma turva lembrança do outrora nascente,
Hoje jaz, exausto, de todo seu esplendor.
Assim passamos a vida,
Em seu ciclo completo de oscilações
Nascendo sempre para sermos eternos,
E morrendo diante de todas as nossas convicções!

domingo, 2 de junho de 2013

Memória




Sou como uma peneira de tranças espaçadas,
Muito se perde do que busco e cultivo.
Esqueço livros, nomes, e muito mais...
Mas sempre fica algo guardado que não sei explicar,
Sempre fica uma coisa melhor do que esqueço,
Minha memória é um traste ignorante que perde tesouros.
Mas, como só essa peneira me resta,
Continuo pescando e deixando escapar.
As lembranças, embora pequenas,
Germinam serenas
Nas minhas manhãs,

Em todo o meu despertar!

(Daniel Porto)

sábado, 25 de maio de 2013

Lua Cheia



Na noite em que me pediste a lua
Foi um dia sem desencantos e realidades.
Tolos, em pensamentos e liberdades,
Únicos, neste mundo de carne crua.

Tua alma me serviu de inspiração,
Mesmo sendo eu, uma mistura de tantos pecados,
Apenas mais um dos poetas angustiados,
Brindando a vida, neste mundo sem razão.

Nessa noite... sem amores enlouquecidos,
Fomos apenas atração das almas.
Dou-te a lua então, em tuas noites calmas,
Dai-me céu estrelado, dos nossos amores perdidos.

VAZIO EU


O dilúvio que cai sobre meus pensamentos, nesta noite vazia,
 De vazio Eu,
Sombreia o horizonte em fúnebres constatações.
Vazios e solitários,
 De vazio Eu,
 Percebe-se a imensidão de tão preenchido vazio.
Um choro perdido, um olhar sem razão.
Escavo as lembranças, rumino esperanças, imóvel, perplexo.
Todos neste momento me abandonaram,
Nada se calcifica nas minhas certezas, nada se perpetua no meu mundo efêmero.
E essa angustia tórrida que abrasa minha existência tão complexa, ridiculamente simples,
Essa busca enervante pela paz,
Os prazeres,
 Toda a calma, e o querer,
Sai de mim como uma loucura, insígnia que rege meus dias,
Uma fatal e nebulosa assiduidade dessa escuridão em mim,
Arrebata-me e arrefece meu coração.
Paradoxo constante nas agruras de um caminho aflito e feliz.
Minha loucura é o motivo da minha morte e do que me faz viver.
Meu grito e meu sorriso nascem de tudo em mim conciso,
Mas também, dos meus profundos vazios diários,
Das minhas noites vazias,
E do meu alvorecer,
De vazio Eu !